filhos bastardos de uma nação madrasta


Todos somos portugueses. Todos, salvo as desonrosas excepções do costume, estamos a perder poder de compra, qualidade de vida, uma vida que nem sequer foi alguma vez faustosa, ao contrário do que vêm agora apregoar certas luminárias do alto da sua sapiência e do seu conforto económico e do seu egoísmo e certos figurões a quem a crise, qualquer crise, passa ao largo com efeitos secundários de somenos, mesmo, como se sabe, aqueles que levam dolosamente à falência as empresas que dirigem e os que praticam todo o tipo de malfeitorias com o beneplácito, a conivência de uma só lei, a da total impunidade.

Todos somos portugueses. Todos, salvo as desonrosas excepções do costume, sofremos os agravamentos insanos de impostos, os aumentos de preços (tantas vezes encapotados), a redução directa e indirecta de salários, a precariedade laboral, as prepotências dos patrões que se aproveitam da crise para melhor sugar, subjugar, escravizar (não tenhamos medo das palavras, estamos perante um novo e mais refinado tipo de esclavagismo), o desemprego galopante e a instabilidade laboral, o medo do futuro, os atentados do Estado contra a nossa carteira e contra os nossos direitos através de mil e uma tramóias destinadas a arrancar-nos couro e cabelo, seja mediante a perda de regalias (mínimas, ao contrário do que as tais luminárias querem fazer querer), o corte escandaloso dos subsídios de desemprego, a degradação dos serviços de saúde e tantos outros que não são esmola nem benesse nem favor, somos nós que os pagamos.

Estes são factos a que ninguém pode, ninguém deve ficar indiferente, quer se rotule a si próprio de direita ou de esquerda e desde que tenha sensibilidade para as questões sociais, desde que o inquietem os flagelos, e são tantos, de um país tanta vezes prometido e outras tantas adiado, desde que a indiferença não o tolha, não lhe embote a consciência, desde que o individualismo, a falta de sentido humanista e solidário não o levem a fechar-se na concha das suas mesquinhas, comezinhas, estreitinhas ambições e aspirações. Ou no aconchego do seu bem-estar.

Sou ingénuo. Sei que o sou. E politicamente inculto. E um sonhador. E um idealista. E um utópico. E um romântico. Sei isso tudo. Mas não deixa de me fazer espécie que a luta contra o mau estado do País esteja confinada a uma greve geral, a uma ou outra manifestação isolada, a alguns discursos mais ou menos inflamados, a muita agitação e propaganda inspirada em tratados revolucionários ultrapassados pelas circunstâncias e pela dura realidade das experiências fracassadas. 

Sem clubismos, sem facciosismos, independentemente das peias ideológicas que nos dividem para que outros melhor possam reinar (e reinar nos dois sentidos que o termo tem,  o de governar como rei e senhor e o de mangar com a plebe), devíamos actuar com mais contundência, mais vigor, mais ira, mais revolta. Através, por exemplo, de gigantescas manifestações apartidárias, totalmente apartidárias, contra o governo, a assembleia, os políticos em geral, a cambada que assaltou o poder e a outra que se prepara para o tomar de assalto assim que nós, iludidos, conformados, desalentados, ensimesmados, formos chamados a neles votar e, mais uma vez, a neles confiar os nossos destinos. Gigantescas manifestações que exijam uma nova geração de homens e mulheres devotados a uma única causa, a de todos e não a deles.

Não queremos mais partidos a ganhar eleições e a distribuir cargos por correlegionários, mas sim pelos mais aptos para os lugares. Não queremos a criação de empresas públicas fantoche. Não queremos gastos perdulários feitos por quem tem o dever de nos servir, a nós e ao País. Não queremos mais fugas ao fisco pelos que mais ganham (não seria por eles, aliás, que se deveriam começar a tomar medidas, morais e sensatas, de combate à evasão fiscal e, consequentemente, ao défice?). Não queremos mais salários principescos, bónus milionários, reformas chorudas, enquanto nos exigem a nós que trabalhemos mais anos, enquanto concedem, à laia de dádiva, pensões de miséria em paga do suor de toda uma vida. Não queremos mais corrupção sem castigo, mais prostituição e lenocídio económico e político sem penalização, mais tráfico de influências sem punição, mais gamanço desavergonhado aos que menos têm, porque é mais fácil, porque esses comem e calam, porque não afecta nem amigalhaços nem capangas nem apoderados nem os lambe-cus que vegetam à sombra do poder e com as sobras do poder. Não queremos mais contratos ruinosos com entidades privadas nacionais ou estrangeiras, assinados sabe-se lá, ou até se sabe, com que interesses obscuros. Não queremos nem auto-estradas, nem aeroportos, nem pontes, nem centros culturais, nem outras obras de fachada, nem submarinos, nem aviões de combate, nem tanques, nem armas, se não precisarmos deles ou, pelo menos, sempre que persistirem outras prioridades a ter em conta, como a saúde, a habitação, a educação, o investimento urgente, inadiável, na qualificação dos portugueses, para que os patrões deixem de ser trolhas endinheirados, como o são em tantos casos, sem iniciativa, sem audácia, sem espírito empreendedor, e os empregados deixem de ser paus para toda a obra, carne para canhão, paus mandados, criados para todo o serviço, pagadores submissos de impostos, sustentáculos involuntários de filhos pródigos, filhos bastardos de uma nação madrasta.

Queremos gestores da coisa e da causa pública nos cargos cimeiros de todos os sectores do Estado, do governo às empresas públicas. Queremos políticos sérios, incorruptíveis, avessos ao compadrio, à cunha, à pancadinha nas costas, aos favores em troca de favores. Queremos que tomem decisões que a todos beneficiem, sem receio de serem apodados de traidores, de serem acusados de alinharem em políticas contrárias à linha ideológica ou programática dos seus partidos (Qual programa? Que ideologia? Quantos e quantas não foram metidos na gaveta, rasgados, menosprezados ao sabor das conveniências ou da pusilanimidade ou da subserviência a lobbies e grupos económicos?). Políticos que defendam o que é de todos, que impulsionem o progresso e a modernização do País. Sem obras públicas mastodônticas se delas não tivermos necessidade imediata, investindo-se antes na indústria, na agricultura, nas pescas, na formação, estancando-se, enquanto é tempo, a fuga para o estrangeiro de quadros especializados, de jovens licenciados, de cientistas, do nosso escol, por falta de oportunidades e porque nenhum sinal de esperança e de optimismo se avista no horizonte.

Portugal tem que mudar. Ou muda ou afunda. E nós com ele. A não ser que nos agarremos ao bote de salvação que temos mais à mão. Partir.



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